P R Ó L O G O



Meus olhos se abriram e o mundo agora é diferente. Contei a mesma história incontáveis vezes. Uma história pintada em 14 pinos. Houve um tempo em que achei que me quebraria em milhares de pedaços, sem retorno. Em outros tempos pensei que desmontaria e não importava quantas vezes me remendassem eu desmoronaria. Eu estava certa demais sobre estar errada. E eu nunca estive tão errada.

A história começa há quem diria, 14 anos atrás. Estava prestes a completar 12 anos e uma curva acentuada fez mudar todo o rumo da história que eu escrevia para mim. Havia o ballet, paixões adolescentes, lugares que eu gostaria de ir, planos jamais concretizados.


A curva se chamava escoliose e eu naquela época pensei ser o fim do mundo. Eu poderia ser partida ao meio, podia me quebrar em milhares de pedaços, eu já podia ver meus pedaços no chão depois de cair um por um em câmera lenta, como um colar de pérolas ao se romper num filme antigo.


Correr, pular, dançar?

Nem pensar.


Uma queda, um tropeço:

Meus passos se tornaram lentos e atentos.


Nenhum tropeço, uma queda, nada de impactos.

Passei a temer abraços apertados.


Uma sentença permanecia, não havia cura ou tratamento alternativo. A sentença era uma só desde o início, imutável intacta. Não havia fuga.


Contagem regressiva. E se eu tropeçar? E se eu cair? E se o abraço for forte demais? E se alguém me empurrar? Meus medos eram estranhos e muitas vezes, incompreendidos.


O som dos meus passos até a sala de cirurgia era oco, ensurdecedor. Meu coração batia alternadamente em relação aos meus passos de forma que eu não pudesse ouvir nada além do impacto dos meus pés tocando o chão.


- Conte até dez.

Um, dois, três, quatro, cinc...

SEIS graus.


Minha coluna não poderia ser corrigida completamente, por isso eu agora tinha apenas 6 graus de curvatura, 14 pinos sustentavam minhas vértebras e eu havia crescido dois centímetros nas ultimas cinco horas e meia.


Cresci dois centímetros, foi o que gritei aos meus pais e pra quem quisesse ouvir enquanto me levavam ainda na maca para fora da sala de cirurgia.


Um recomeço. Um novo rumo para a história


Pensei que sairia da bolha, mas ela agora era de titânio e lacrada por 14 pinos. Antes eu era feita de uma curva em C, agora eu não me curvava. Uma cicatriz perpassava toda minha coluna, um lembrete da historia que vivi até ali.


Ouvi o tilintar do pincel na beira do copo com água, o pigmento de desprendeu e formas vermelhas foram criadas eu as observei se mover e se misturar à água.

As cerdas do pincel agora estavam sujas de um vermelho escarlate. A mesmas cerdas agora percorriam o papel numa lentidão que chegava a doer. Uma gota caiu para fora da linha.


Parei e olhei fixamente para o papel.


Mais respingos surgiram dali, manchas quase saíam do papel. Uma gota d’água fez a tinta dispersar rumo às bordas. Eu estava imersa, naquele processo interminável.


E foi assim que me misturei à pintura que criava e que agora falava por mim.

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