Todos os dias, tudo o que você vê, ouve, toca, percebe e sente te mudam um pouquinho. Estamos diariamente nos transformando. Nossas experiências nos mudam constantemente, e somos nós que escolhemos se ela nos impactará para o bem ou para o mal e o que faremos a partir disso.

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Por um momento achei que eu jamais seria a mesma. No momento seguinte, tive certeza disso. E no próximo eu agradeci por ser uma nova eu.


Depois da tempestade o sol sempre brilha no alto, aquece nossa pele e faz a água da chuva evaporar. E é quase como se a tempestade jamais tivesse existido. Mas a tempestade e a chuva são necessárias não apenas pra que as plantas floresçam, mas também pra que exista um equilibro na natureza. O mesmo se aplica às tempestades da vida.


Quando achei que tudo estivesse perdido, quando eu só enxergava escuridão, avistei um pequeno feixe de luz e fui guiada por ele. A arte me encontrou em meio à tempestade que fez tudo desabar. Ela me escolheu e me acolheu como uma velha amiga. A arte me salvava dos meus demônios, me permitia dizer qualquer loucura que eu quisesse sem jamais me julgar por isso. Ela me abraçava nas noites mais difíceis, me ensinava diariamente sobre persistência, paciência e, sobretudo, paixão. Era isso que me movia. A vontade de me expressar e pintar historias, tanto a minha própria quanto as que criava, me fizeram continuar ali, fazendo do lápis e dos pincéis meus aliados na jornada da vida.


Mais do que olhar pra uma pintura pronta, olhar pra uma tela em branco sempre me deixava entusiasmada: Nela existiam um milhão de possibilidades.


A tinta se espalhou sobre o papel úmido de uma maneira hipnotizante, eu amava apreciar o processo, amava perceber como a tinta se comportava no papel. Cada movimento era sempre inesperado, nenhuma pincelada era planejada. Podia parecer que eu tinha algum controle em relação ao processo, mas isso não era verdade. A tinta agia, se espalhando, acumulando, escorrendo, respingando, e eu reagia tentando guia-la a algum caminho que eu julgava correto, mas nenhuma pintura era igual à outra e eu sempre aprendia algo novo.


A arte dia após dia continua me acolhendo, me envolvendo, me ouvindo, me compreendendo e me curando. É como se eu estivesse habitando meu próprio planeta, vivendo num mundo que eu mesma criei. Eu podia caminhar no chão de areia, voar entre as nuvens, e mergulhar no mais profundo oceano. Eu podia falar com pássaros, criar novos seres, inventar novas cores e transformar o que tocava. A arte era o meu grito, meu choro, meu consolo, meu abraço, minha expressão, meus amores, minha paz.


A tempestade foi casulo para minha metamorfose, que aliás, acontece mesmo depois da chuva. E a arte...

Bom, a arte é o meu constante bater de asas.

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Meus olhos se abriram e o mundo agora é diferente. Contei a mesma história incontáveis vezes. Uma história pintada em 14 pinos. Houve um tempo em que achei que me quebraria em milhares de pedaços, sem retorno. Em outros tempos pensei que desmontaria e não importava quantas vezes me remendassem eu desmoronaria. Eu estava certa demais sobre estar errada. E eu nunca estive tão errada.

A história começa há quem diria, 14 anos atrás. Estava prestes a completar 12 anos e uma curva acentuada fez mudar todo o rumo da história que eu escrevia para mim. Havia o ballet, paixões adolescentes, lugares que eu gostaria de ir, planos jamais concretizados.


A curva se chamava escoliose e eu naquela época pensei ser o fim do mundo. Eu poderia ser partida ao meio, podia me quebrar em milhares de pedaços, eu já podia ver meus pedaços no chão depois de cair um por um em câmera lenta, como um colar de pérolas ao se romper num filme antigo.


Correr, pular, dançar?

Nem pensar.


Uma queda, um tropeço:

Meus passos se tornaram lentos e atentos.


Nenhum tropeço, uma queda, nada de impactos.

Passei a temer abraços apertados.


Uma sentença permanecia, não havia cura ou tratamento alternativo. A sentença era uma só desde o início, imutável intacta. Não havia fuga.


Contagem regressiva. E se eu tropeçar? E se eu cair? E se o abraço for forte demais? E se alguém me empurrar? Meus medos eram estranhos e muitas vezes, incompreendidos.


O som dos meus passos até a sala de cirurgia era oco, ensurdecedor. Meu coração batia alternadamente em relação aos meus passos de forma que eu não pudesse ouvir nada além do impacto dos meus pés tocando o chão.


- Conte até dez.

Um, dois, três, quatro, cinc...

SEIS graus.


Minha coluna não poderia ser corrigida completamente, por isso eu agora tinha apenas 6 graus de curvatura, 14 pinos sustentavam minhas vértebras e eu havia crescido dois centímetros nas ultimas cinco horas e meia.


Cresci dois centímetros, foi o que gritei aos meus pais e pra quem quisesse ouvir enquanto me levavam ainda na maca para fora da sala de cirurgia.


Um recomeço. Um novo rumo para a história


Pensei que sairia da bolha, mas ela agora era de titânio e lacrada por 14 pinos. Antes eu era feita de uma curva em C, agora eu não me curvava. Uma cicatriz perpassava toda minha coluna, um lembrete da historia que vivi até ali.


Ouvi o tilintar do pincel na beira do copo com água, o pigmento de desprendeu e formas vermelhas foram criadas eu as observei se mover e se misturar à água.

As cerdas do pincel agora estavam sujas de um vermelho escarlate. A mesmas cerdas agora percorriam o papel numa lentidão que chegava a doer. Uma gota caiu para fora da linha.


Parei e olhei fixamente para o papel.


Mais respingos surgiram dali, manchas quase saíam do papel. Uma gota d’água fez a tinta dispersar rumo às bordas. Eu estava imersa, naquele processo interminável.


E foi assim que me misturei à pintura que criava e que agora falava por mim.

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